Descobertas

O calor havia voltado. Alice estava de mau humor por causa disso. Odiava o calor, queria que aquele frio magico volta-se e nunca mais fosse embora. Tinha adorado aquele frio. Afinal nunca havia nevado em São Paulo, e logo ela que sempre tivera curiosidade de como era a neve de verdade, finalmente havia descoberto e adorado a sensação. Outros motivos também ajudavam como não ir trabalhar por causa da neve, mas isso era outra historia. Mas o frio e a neve haviam ido embora, e lá estava Alice trabalhando novamente em algo que nunca gostara, mas que pagava suas contas.

– Bom dia, em que posso ajudar?

– Moça, minha internet não quer funcionar…

Todo dia a mesma coisa, pessoas ligando pedindo ajuda, mas ninguém queria saber se ela precisava de ajuda. Ninguém se importava com os problemas dos outros, apenas com os próprios problemas. Ela odiava isso, não queria ajudar as pessoas com coisas ‘inúteis’, queria ajudar as pessoas com algo grande. Pesara em ser policial ou bombeira, mas tinha medo de perder a vida rápido, também pensou em ser voluntaria nesses países de baixa renda, mas precisava pagar suas contas. Pensara em muitas coisas, mas tinha desistido de todas elas. Por medo, falta de coragem ou incentivo. Agora estava lá, trabalhando com algo que não gostava, mas que se aproximava com o que queria.

Finalmente hora de ir embora. Ir pra casa descansar, mas antes enfrentar aquele calor que tanto odiava. Ônibus, metrô, gente em todo canto, transporte lotado. Finalmente em casa. Gato esperava sua chegada, estava com fome e sua caixa de areia suja. Alice fizera suas obrigações diárias e foi tomar um banho frio pra passar o calor. Durante o banho lembrou-se da neve, do frio gostoso e da carta. A carta que falava de seus pais. A carta escrita por ela mesma. E que após sua chegada, o frio havia ido embora, como se tivesse chego apenas para entregar a carta e após cumprir sua missão, foi embora. Alice saindo do banho só de toalha foi ler a carta novamente. A carta era estranha, falava de um lugar que nunca tinha ouvido falar, onde nevava constantemente. Mas apesar da neve constante, não era frio constante. Contava sobre seus pais nesse lugar, como se ainda estivessem vivos.  Uma carta da época em que seus pais estavam vivos era praticamente impossível. Alice era muito pequena e não sabia escrever direito. Não podia ter sido ela que escreveu a carta. Mas a carta parecia nova. Não era antiga, ou então estava muito bem conservada. Não fazia sentido. A pesar a letra ser a dela, não podia ter sido escrito por ela. E falava coisas sem sentido, que não existiam.

Alice foi preparar um jantar. Comida congelada como de costume. Mas estava sem, precisava comprar. Foi ao mercado, comprou alguns pratos e voltou pra casa. No caminho ela se lembrou da ultima frase da carta: “Espero que encontre o caminho para casa”. Como assim encontrar o caminho para casa? Alice já estava ficando com dor de cabeça com aquilo. Ia jogar a carta fora, não iria mais pensar naquilo. Chegou em casa, pegou a caixa de comida congelada e foi preparar sua comida. Gato entrou correndo na cozinha com a carta na boca.

– O que é isso Gato? Tá achando que é cachorro? Dá isso aqui!

Gato pulou na mesa e soltou a carta em cima dos outros pratos congelados e saiu correndo. Alice sem entender nada foi pegar a carta para jogar fora de vez, mas no instante que olhou viu algo diferente. Havia mais escrito na carta. Mas que só aparecia em contato com algo gelado.

Cartas para ninguém

O frio continuava e aumentava cada dia mais. Estava cada vez mais difícil suportar aquele tempo. O frio também havia se espalhado. Outros estados do Brasil e alguns outros países também já sofriam com o frio sobrenatural. Alice estava em casa, sentada em sua poltrona, coberta por um grosso edredom tomando chocolate quente enquanto assistia televisão. Havia um gato deitado em seu colo. Era malhado preto e branco, pelo não muito comprido, olhos azuis e de uma preguiça sem igual. Na verdade se tratava de uma gata, mas que por falta de criatividade chamava-se “Gato”. Havia adotado ela, por causa do frio. Encontrou-a no meio da neve tremendo e teve de socorrê-la. Como não encontrou o dono resolveu ficar com a Gato. Alice não podia ir trabalhar, todos estavam dispensados. A neve não permitia fácil locomoção. Afinal nenhum brasileiro estava preparado para ela, nunca havia nevado no Brasil. Alice via um filme na TV, não lembrava o titulo, mas era divertido. Gato dormia pesadamente em seu colo. Alice queria brincar na neve, mas o frio estava insuportável. Só não se sentia sozinha por causa da companhia de Gato. Não tinha muitos amigos, os poucos que tinha moravam longe. Mas não se importava, já estava acostumado em ficar sozinha. Lembrou como foi quando começou a morar sozinha. Chorava quase todas as noites no inicio. Depois passou, e aos poucos foi se “esquecendo” de como chorar. Não lembrava a ultima vez que chorou. Sacudiu a cabeça, não gostava de ter essas lembranças, porque sempre depois se lembrava de seus pais. Não que não quisesse lembrar-se deles, apenas evitava, pois sempre se sentia mal em seguida.

De repente Gato pulou de seu colo e correu em direção à porta. Alice prestou atenção para algum barulho. Nada ouviu.

– Gato, volta aqui. Estava quentinho com você.

Mas em vez de voltar, Gato começou a miar.

– O que você quer? Acabou de comer, não pode estar com fome ainda.

Alice levantou para ver o que era. Havia uma carta em sua porta. “Cartas não são entregues nos apartamentos” pensou ela. E foi verificar achando que era algum vizinho engraçadinho ou a carta foi entregue pessoalmente no lugar errado. Quando pegou a carta viu que não havia destino ou remetente. O envelope estava em branco, sendo preso apenas por um lacre de cera igual às cartas de filme. Não conhecia o brasão nele impresso. Pensou em levar até o porteiro para que ele identifica-se o real dono da carta. Mas estava curiosa sobre o conteúdo. E por algum motivo estranho Gato também, pois quando ela colocou a carta em cima da mesa, Gato subiu e ficou mexendo na carta como se quisesse abri-la. Estranhando o comportamento de Gato e por sua curiosidade resolveu abrir a carta.

Assustou-se ao abrir a carta, reconhecia a letra. Era a sua própria letra. Não dizia a quem estava endereçada, mas continha sua assinatura. Uma assinatura que ninguém conhecia, pois não a usava em documento algum. Só pra ela mesma. A carta parecia ter sido escrita a muito tempo. Quando começou a ler levou outro susto. A carta falava sobre… seus pais.

Natal

Era noite de natal. Alice estava super feliz, radiante. Alice gostava do natal. Todo seu significado e tradições. Adorava também a neve, adoraria que nevasse no Brasil. Sempre quis um natal diferente, não por causa do calor típico brasileiro ou do frio russo. Apenas pela neve. Queria que ela não fosse nem quente nem fria, apenas branquinha e macia. Bem Alice nunca tinha visto neve de verdade, apenas aquelas de mentira ou pela televisão. Mas hoje era um dia diferente.
– Os meteorologistas ainda não sabem explicar o ocorrido. A mudança de temperatura em São Paulo não estava prevista por nenhuma agência meteorológica. Logo mais voltaremos com mais informações.
Escutou Alice na televisão e se lembrou daquele dia. Olhava para cima, vendo aquele pequeno objeto caindo lentamente, dançando no ar. Quando tocou em sua mão, ficou maravilhada e demorou alguns segundos para entender o que era aquilo.
– Um floco de neve!
Ela conhecia muito bem flocos de neve, não por já ter visto algum, mas por adorar tanto, que sempre que podia procurava algo sobre na internet. Daquele dia em diante a temperatura de São Paulo começou a cair dia após dia, até que então aconteceu o inesperado. Começou a nevar em São Paulo e para deixar mais estranho ainda, em pleno verão. Ninguém sabia explicar o que acontecia. Mas Alice não se importava, era neve! Fazia tempo que não se sentia tão feliz assim que nem tinha percebido o fato estranho. E lá estava ela, noite de natal, sozinha em casa e nevando. Para completar a felicidade, faltavam apenas seus pais, como sentia falta deles. Mas essa não era uma noite para se entristecer, mas uma noite alegre onde Alice comeu e bebeu a vontade. Esbanjou nas compras de natal esse ano tamanha felicidade. Comeu até se fartar e bebeu até adormecer.

Acordou no dia seguinte meio zonza, demorou a se lembrar de que aconteceu. Olhou para a garrafa de vinho vazia e se lembrou.
– Nota mental, beber menos da próxima vez.
Sentiu uma pontada na cabeça. La vem à ressaca pensou ela. E resolveu ficar mais um pouco na cama deitada. Enquanto descansava de olhos fechados, começou a se lembrar de um sonho que teve durante a noite. Mas ainda estavam meio embaçadas as memórias. Um sonho maluco sobre neve e um rapaz azul. Riu consigo mesma.
– Neve no Brasil, onde já se viu.
No mesmo instante percebeu que estava debaixo das cobertas e com um pouco de frio. Levantou e foi correndo para a janela. Lembrara-se de que a neve era real. Abriu um sorriso. Mas a cabeça voltou a doer.
– Maldita ressaca.
Voltou a se deitar. Assim que melhorar vou brincar na neve, pensou ela. Afinal era natal e não precisava ir trabalhar neste dia. Adormeceu pensando no dia que ainda tinha pela frente, esquecendo-se do sonho. Não queria lembrar o sonho agora, queria melhorar para ir brincar na neve. E assim o fez.

Surpresa

– I’m on the highway to hell
– On the highway to hell
– Highway to hell
– I’m on the highway to hell

Ac/Dc pensava Alice. Adorava a banda, sempre gostou dos clássicos do rock, por isso escutava somente uma rádio. A única que tocava esse tipo de musica. A musica era incrivelmente propicia ao calor que fazia lá fora. 35°C marcavam os termômetros. E lá estava Alice, andando naquele sol escaldante para comer no único boteco que conseguia pagar. Trabalhava em bairro nobre, porem o que recebia para se alimentar não era suficiente para comer nos restaurantes perto do trabalho, tinha que caminhar até um pequeno restaurante que tinha pratos agradáveis financeiramente, e o gosto da comida também não era dos piores. Já conhecia o dono, fez amizade com simpático senhor e sua esposa. Ele cuidava dos negócios e ela preparava a comida. Um lindo casal na opinião de Alice. Esperava um dia achar alguém para viver até sua velhice igual eles que já eram casados a mais de 50 anos. Em seguida sempre pensava que nunca iria achar alguém. Alice era morena, cabelos pretos compridos sem brilho, pele clara, usava um óculos remendado, tinha um corpo tachado como normal, nem magrela nem gorda, sem grandes curvas. Era apenas mais uma na multidão, não chamava atenção. Ninguém se interessaria por alguém como eu, pensava Alice. Logo chegou ao pequeno restaurante, comprimentos os donos que sempre estavam lá com um sorriso no rosto. Sentia-se bem ali, mais um motivo para gostar de comer lá. Fez seu prato, quase sempre igual, pegou um refrigerante e foi se sentar. Uma mesa no canto, no fundo do salão. Preferia ali, pois conseguia ver todo o movimento do restaurante. Não sabia o porquê fazia isso, afinal todo dia via as mesmas pessoas comendo lá. Raras exceções sem importância.

Nesse dia viu uma pessoa diferente no restaurante. Um rapaz que parecia invisível, pois ninguém percebeu sua presença. Ele pegou sua comida e agua para beber. Antes de se sentar percebeu que Alice o olhava, e pareceu apreensivo. Comeu rápido, usou o banheiro e saiu do restaurante. Alice achou estranho o rapaz, ele parecia preocupado demais e sua pele parecia ser meio… azulada!

– Devo estar imaginando coisas já. Culpa desse calor infernal.

Terminou sua refeição. Pagou e foi embora, debaixo daquele calor infernal de volta para o trabalho. Mas no caminho percebeu algo estranho. A temperatura parecia ter diminuído, olhou para um termômetro de rua que tinha perto de seu trabalho, 35°C. Alice ficou surpresa, sentia calor, mas menos que antes. Quando olhou o relógio viu que estava atrasada e correu para o trabalho. Esqueceu-se do ocorrido logo que chegou.

Finalmente hora de ir embora, Alice se sentia aliviada. Tinha trabalhado mais que o normal naquele dia. Saiu e sentiu aquele calor enorme ainda, o sol estava baixando, mas continuava a insistir em esquentar o máximo que podia a superfície da Terra.

– Maldito calor! Não vejo a hora de chegar o inverno. Pelo menos fica frio. Bem que podia nevar no Brasil.

Enquanto praguejava e andava para o metrô para voltar para casa sentiu uma sensação estranha que a fez parar no meio do caminho. Sentiu como se tivesse alguém olhando para ela. Olhou em todas as direções, mas nada encontrou. De repente uma sensação mais estranha ainda. Um vento gelado subiu pelas costas. Tão repentino que Alice deu um grito baixo de susto. Preocupada olhou em todas as direções novamente. Não estava perto de nada que pudesse jogar um vento gelado em suas costas. Aquilo foi refrescante, mas assustador. Sem sentir mais nada voltou a caminhar para casa.

Chegando a casa parou alguns segundos na frente de seu prédio. Gostava daquele prédio, era de arquitetura antiga. Gostava dessas coisas. O bairro era calmo também, tinha um parque logo em frente. Adorava o lugar. O aluguel não era muito barato, mas pensava que o valor valia a pena. No prédio vivia bastante gente idosa, então quase não tinha aborrecimentos com vizinhos. Quase todos muitos gentis. E ali enquanto observava a região, como era cedo resolveu sentar um pouco na frente do prédio, olhar o movimento. Coisa que raramente fazia, normalmente ia direto para seu apartamento assistir TV ou ficar na internet. Mas hoje, estranhamente sentiu essa vontade de aproveitar a paisagem.

Sentou-se em frente ao prédio e ficou ali alguns minutos só observando o movimento. A temperatura estava um pouco mais baixa. Viu o parque, os carros e pessoas passando. Quando foi olhar para o céu admirou-se com a visão. Estava todo alaranjado cheio de nuvens. Gostava quando o céu ficava assim, achava lindo. Enquanto observava as nuvens e tentava identificar formas nelas percebeu algo caindo. Ficou prestando atenção naquilo. Era bem pequeno, caia bem de leve, devagarinho. Percebeu que ia caindo em sua direção. Estendeu a mão para poder pega-lo e surpreendentemente aquele objeto pousou perfeitamente em sua mão. Alice sorriu com a coincidência, mas o sorriso logo desapareceu e se transformou para uma cara de espanto quando percebeu o que era aquilo.

– Não pode ser. Devo estar louca… Isso realmente é o que estou pensando?!

Alice

Não aguentava mais aquilo. Todos os dias sair cedo para trabalhar em um emprego que não gostava, mas que infelizmente era o único que tinha arranjado. Precisava pagar suas contas. Morava sozinha desde seus 18 anos, nunca teve uma vida fácil. Perdeu os pais cedo e aos 15 anos passou a morar com seus avós, sempre se sentiu deslocada na casa deles e assim que completou a maioridade foi morar sozinha. Tinha saudade dos pais, das historias fantásticas que contavam das viagens que fizeram pelo mundo, sobre cada lugar que conheceram. Queria poder viajar o mundo também, conhecer cada canto dele, mas não tinha dinheiro. O emprego não pagava bem, mal conseguia se sustentar sozinha, imagina viajar o mundo. Utopia em sua opinião. Chamava-se Alice, seus pais sempre adoraram esse nome, e ela também. Comparava-se com a Alice no País das Maravilhas, livro que adorava e que sonhava que também acontecesse com ela. Mas sabia que era impossível aquilo, era uma historia para crianças. Não acontecia na vida real. Na verdade ela já não acreditava mais em histórias infantis. Não acreditava em milagres ou coisas parecidas. Acreditava que tinha que trabalhar pra receber um salario ruim, tentar sobreviver, guardar algum dinheiro pra quando se aposentasse conseguir pagar o asilo. Não queria ter filhos nem se casar. Besteira tudo isso de felicidade e amor. Não sabia mais o que era isso desde a morte de seus pais, e achava que nunca mais saberia. Apenas vivia dia após dia, sem ter certeza do futuro, apenas sentindo saudade do passado.